
O que aprendi sobre acessibilidade attitudinal na Califórnia
O que aprendi no Vale do Silício vai além da tecnologia. Do carro "adaptado" que não me servia à cultura das filas americanas: descubra como a acessibilidade atitudinal salvou minha viagem.
Pega o passaporte e o chá ☕️, porque hoje a nossa conversa atravessa fronteiras!
Na primeira semana de fevereiro de 2026, tive a oportunidade incrível de visitar o Vale do Silício, na Califórnia. Fui conhecer o famoso Googleplex junto com a minha equipe e, claro, aproveitei para conhecer um pouco de São Francisco.
Mas, como vocês sabem, o olhar de quem vive a acessibilidade (ou a falta dela) nunca tira férias. E essa viagem trouxe lições valiosas.

O Googleplex: Uma cidade de inovação
Para quem ouve falar e não imagina o tamanho: o Googleplex é a sede global do Google. E não é só um prédio; é um campus gigantesco, com aproximadamente 10 km². É quase uma cidade universitária, cheia de prédios imponentes, bicicletas coloridas para todo lado e uma diversidade de pessoas que impressiona.
Foi emocionante. Tive vários momentos de integração e, finalmente, transformei "avatares" em abraços. Conheci gente incrível que eu só via pelas janelinhas das reuniões online. Essa conexão humana, olho no olho, não tem tecnologia que substitua.
São Francisco e a boa companhia
Aproveitei para explorar São Francisco. Fui ao Jardim Japonês (uma paz surreal), vi a imponente Ponte Golden Gate e conheci restaurantes ótimos.

Mas, sinceramente? O que fez a experiência ser "nota 10" não foi a paisagem, foram as pessoas. Estar com uma equipe que acolhe e se diverte junto faz qualquer lugar ficar melhor.
O Perrengue: Quando a "norma" não te atende
Agora, vamos falar de estrada... e de um desafio.
Eu decidi alugar um carro para ter autonomia. Nos EUA, existe a ADA (Americans with Disabilities Act), uma lei fortíssima que obriga, entre outras coisas, as locadoras a fornecerem adaptações.
Na teoria? Lindo.
Na prática? O carro "adaptado" que me ofereceram tinha apenas controles manuais de aceleração e freio no volante.
O problema é: a minha necessidade é diferente. Como sou amputado da perna direita, eu uso uma inversão de pedal. Basicamente, o acelerador vai para o lado esquerdo, permitindo que eu controle tudo (acelerar e frear) com a minha perna esquerda.
A locadora não tinha essa opção. E eu nunca dirigi usando as mãos! Imagina aprender uma nova forma de dirigir, do zero, no meio das freeways movimentadas da Califórnia? Sem chance. Preferi não arriscar a minha segurança e a dos outros.
A solução? Peguei um carro automático comum e... me virei. Fui dirigindo literalmente "de ladinho", cruzando a perna esquerda para alcançar os pedais do lado direito. Deu certo? Deu. Foi confortável? Longe disso.
Isso me lembrou que "estar na lei" nem sempre significa atender à diversidade real das pessoas. Acessibilidade não é "tamanho único".
Brasil x EUA: A Fila e a Filosofia
Experimentar a acessibilidade em outro país me fez valorizar algumas coisas do Brasil.
Nos EUA, o conceito da ADA foca muito na Igualdade de Oportunidades. A ideia é: "a fila é para todos, mas o acesso à fila tem que ser possível". Não existem tantas prioridades explícitas.
Já no Brasil, temos a LBI (Lei Brasileira de Inclusão), que é reconhecida mundialmente como uma legislação robusta e fortíssima. A gente trabalha mais com a Equidade, entendendo que as pessoas são diversas e, às vezes, precisam de uma atenção diferente para competir justamente. Confesso: senti falta das nossas filas preferenciais (inclusive na longa fila da imigração no aeroporto).
Mas essa experiência me deixou uma reflexão clara: de nada adianta termos a lei mais robusta do mundo no papel se, na prática, não houver atitude. A lei cria a base, mas é a ação humana que constrói a inclusão de fato.
A tecnologia da gentileza
E foi exatamente isso que salvou a viagem. O que fez a diferença não estava escrito em lei nenhuma: foi a acessibilidade atitudinal.
Mesmo sem a cultura da "preferência" ou da lei obrigando, percebi uma gentileza natural. As pessoas seguravam a porta para mim, não com aquele olhar de "coitadinho, deixa eu ajudar o PCD", mas por pura educação. Elas faziam isso para mim, faziam para quem vinha atrás, faziam porque é gentil! Isso é uma coisa que vejo acontecer em todo lugar, não só lá nos EUA, oque sinceramente me deixa muito feliz.

No fim do dia, a lição que trouxe na mala é algo que eu já sabia, mas ficou reforçado: leis como a ADA ou a nossa LBI são fundamentais. Mas e a acessibilidade attitudinal e gentileza? Ah, essa é a tecnologia mais acessível que existe. E ela é universal.
Bora sermos mais gentis hoje para sermos mais acessíveis?
